Editorial

A MAIOR ESCOLA DO MUNDO


UM SONHO DE FÉ

Nessa noite, eu tive um sonho. Um sonho sonhado. Consciência adormecida.
Por mais lúdico que pareça, eu sonhei mesmo.
No sonho, eu morava a alguns metros da igreja. Setenta metros, talvez. E, na
tentativa de convencer o pastor a tomar um café em minha casa, eu diminuí
a distância para quarenta metros. Mentirinha boba. Coisa pequena. Talvez
eu não fizesse isso, mas quem controla sonho? O pastor aceita meu convite.
Saímos pela rua, em direção ao meu prédio.
Chegando lá, algo interessante acontece. Em vez de entrarmos pelo portão
de sempre, a entrada principal, adentramos por uma porta lateral. No lugar
do pátio do meu prédio, encontramos açudes, florestas, rios, bichos
selvagens. É como se o pátio tivesse virado uma selva.
Atravessamos o açude, que logo vira uma piscina. (É sonho, queridos leitores
irmãos, a criatividade não tem censura nem limitações). Seguimos por uma
pinguela. O pastor, animado, topa ir adiante sem hesitar. Ele atravessa a
tábua, equilibrando-se como um artista circense, diante de jacarés
famintos, bem debaixo de seus pés. A água atinge a calça do pastor. Eu me
preocupo, pois ele tem um novo culto em breve. Entretanto, o pastor está
absolutamente calmo, sereno e tranquilo.
Após atravessarmos árvores e mato, misturado com um pouco de concreto
– afinal estamos no meu prédio em São Paulo – chegamos ao hall do
elevador. O pastor apresenta um sorriso no rosto. É como se ele não se
importasse com o caminho de selva. Ele sabia que chegaria ao outro lado
são e salvo. É a certeza do cristão.
Eu acordo. Acho que uma criança invadiu o quarto. É como se ela desligasse
o sonho subitamente, com um controle remoto, antes de ele chegar ao final.
Diante dessa pandemia em que vivemos, penso no meu sonho e na figura
que tenho mais próxima da fé, da transmissão da mensagem divina, da
elegância religiosa, da tranquilidade na palavra de Deus. Ele, o Pastor José
Roberto.
O pastor atravessando pinguelas no meu prédio, em São Paulo e cruzando
matas para chegar ao hall do elevador? Desculpe, mas não há como deixar
de associar tal feito ao cenário em que vivemos hoje. Ó, Deus, apesar de
tudo, temos tanto e agradecemos tão pouco.
O período de quarentena é, sim, uma aventura. Mas dá para atravessá-lo na
companhia da nossa fé, da palavra de Deus e dos nossos irmãos, pois é uma
provação. Ou já nos esquecemos de tantas histórias bíblicas de travessias
de desertos e lutas contra leões? Ó, Deus, apesar de tudo, temos tanto, e
agradecemos tão pouco. O sonho termina com uma lição.
Vendo o reverendo ao meu lado, superando matas e animais selvagens com
a tranquilidade de quem vai comprar pão na padaria, cai minha ficha – lá do
céu – do que é uma vida com Deus. É uma travessia de fé, de convicção, de
seguir feliz e agradecido, mesmo diante de qualquer desafio.
Aqui fica um convite. Vamos atravessar louvando, orando, perdoando, e
sabendo que, apesar de tudo, ó, Deus, temos tanto e agradecemos tão
pouco.

Por Pedro Cavalcante